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22 jan 2026

O labirinto humano de Inside Man

Inside Man é uma minissérie que explora os limites entre o bem e o mal, mostrando como qualquer pessoa pode cruzar a linha da civilidade sob certas circunstâncias. A narrativa conduz o espectador a questionar as próprias crenças éticas, revelando o funcionamento contraditório do comportamento humano quando confrontado com dilemas ou emoções intensas. A série traz, de forma irreverente e sutil, a contradição humana no que se refere à ética e à moral.

A ironia esteve presente nos quatro episódios — desde o jovem rapaz que assedia a jornalista no metrô e se indigna por ter sido filmado, até o personagem Dillon, que questiona o senhor que violou as duas mulheres se, ao experimentar novas posições sexuais, poderia ganhar mais dinheiro, referindo-se ao misterioso valor que aparecia na sua conta após fazer sexo com a esposa. O mesmo Dillon ainda corrige o policial sobre o número de pessoas que matou, deixando claro que uma delas não morreu por sua ação direta, mas por infecção hospitalar. Esse conjunto de cenas mostra quão irônico e dual pode ser o pensamento de alguém cuja moralidade não corresponde ao esperado socialmente — afinal, Dillon comeu os pés da mãe, mas apenas depois de morta. Ora, qual é o problema? Ela estava morta. Após essa cena, formei uma nuvem imaginária sobre a minha cabeça e dentro da nuvem tinha um cérebro a dizer: “prazer, meu nome é doença mental”.

É neste contexto que os personagens revelam as suas fragilidades morais e psicológicas. Aqueles que julgavam Jefferson e Dillon, os dois criminosos à espera da sentença de morte, eram os mesmos que ansiavam por aconselhamentos que pudessem direcionar as suas próprias vidas e resolver os seus dilemas ou crimes. Haja vista o senhor que havia cometido crimes de violação sexual contra duas mulheres há 30 anos, bem como a jornalista que, embora não tivesse cometido um crime, desejava entrevistar criminosos para entreter os seus leitores com histórias que, ao mesmo tempo, a enojavam.

O cérebro é um órgão que pesa pouco mais de 1,5 kg e parece estar no comando de todas as coisas. Parece que ele e a razão funcionam de uma forma; por outro lado, temos os sentimentos e as ações que deles decorrem. A psicologia de Aaron Beck propõe que um pensamento leva a uma emoção, e esta leva a um comportamento — comportamento que pode ser planeado (racional) ou impulsivo (irracional). Essa teoria lança luz sobre o funcionamento da mente e ajuda a compreender, em certa medida, o comportamento humano. Será que é aí que o crime nasce?

A origem da criminalidade não sabemos, mas para mim é certo que Inside Man  desconcerta, serve como um espelho à nossa frente. Ao observar aqueles personagens, percebi como nós, enquanto sociedade, julgamos como juízes alguns comportamentos, enquanto normalizamos outros igualmente contraditórios. A série desafia-nos a pensar até que ponto as nossas normas morais são consistentes, ou apenas convenções que “fingimos” seguir para manter a ideia de ordem. No fim, ficamos com a inquietação de que as contradições humanas que tanto condenamos nos outros talvez também nos habitem, podendo eclodir ou explodir a qualquer momento. “Basta um dia mau”.

Psicóloga Eloiza Rodrigues

OPP 28255 (Portugal)

CRP 06/78682 (Brasil)

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